Meu Buraco Negro Particular
Já vivi vários ciclos de estação. Como todos sabem, são ciclos que passam de meses em meses - ou dias em dias, minutos em minutos, e por aí vai - e a natureza se ajusta a partir da temperatura, dos ventos, e da água. Uns chovem mais, outros menos, alguns são mais quentes, outros mais frios. Especificamente durante uma, as árvores ficam todas pintadas de coloridos, e depois de um tempo, já em outra, elas ficam peladas. Já vivi vários céus também. Céu no plural, porque eu acredito que nunca é o mesmo. As estrelas mudam de lugar, de fato. E, infelizmente ou não, as nuvens são sempre diferentes, então a impressão é de mudança. Existe uma coisa única em viver o céu e perceber suas mudanças, isso porque é um ato contemplativo e meditativo, e nossas contemplações e meditações raramente são as mesmas visto que as ações são temporais, presam do tempo, e ele com certeza nunca é o mesmo. Já as estações claramente nunca são as mesmas, e porque elas demoram para voltar (o inverno demora um ano para voltar a ser inverno), nós somos mais sensíveis. Sabemos o que fizemos no inverno passado, e temos planos para esse que vem, já no verão. Pode-se dizer que sabemos o que dizemos nesse céu, e sabemos o que vamos fazer amanha no próximo, o que se chama rotina. Nunca fui muito adepta a rotinas, mesmo sempre olhando os céus passarem. Me pergunto o que passa primeiro: o céu, a estação, o tempo ou a rotina. Não precisa de muito para mudar uma rotina se você for uma pessoa flexível. As estações não são tão flexíveis assim, nem os céus. A primavera sempre floresce, e o inverno sempre esfria, o verão sempre esquenta e o outono sempre faz todo mundo sair de casa abarrotado de roupa para na hora do almoço subir a barra da calça e querer ficar só de sutiã. Os céus mudam bastante. Alguns são mais azuis que outros, mas sempre azuis, mesmo que por trás do branco da nuvem. às vezes elas próprias floram e se colorem, é lindo demais, recomendo a observação. O ponto é que quem passa primeiro não é uma pergunta racional, uma vez que tudo acontece ao mesmo tempo. E a rotina funciona a partir dos céus que mostram as estações passarem somente perceptível para quem acompanha a passagem do tempo, por isso um ciclo. E nós, pessoinhas, vivemos de ciclos, e tudo que mais queremos é um ciclo constante e previsível, para saciar o anseio por controle que temos.
Algumas pessoas que não são adeptas às rotinas - como eu -, nascem com o ímpeto de quebrar alguns ciclos que nos impõem e nos reduzem a pessoinhas. É um trabalho íntimo, porque mesmo que nos nossos primeiros anos quiséssemos quebrar o ciclo do mundo, percebemos que é mais fácil quebrar nossos ciclos familiares. Sou muito nova para saber qual o resultado, mas sei que o processo é doloroso e, por mais pessoal que seja, é coletivo. Até porque um é tolo de pensar que pode quebrar todos os ciclos sem se desprender dos seus, e penso que está aí um dos nossos maiores desafios. Avareza alguma pode nos impedir de se entontar na roda da fortuna como se não houvesse céu amanhã, com a justificativa de que os outros ciclos merecem ser mais quebrados porque são piores! Ah, que besteira. Aceitemos que nós precisamos deles, e aceitemos que na primavera seguinte, quando tudo estiver pintado de rosa e amarelo, a vida vai melhorar.
As estrelas, então, são as mais conscientes. Elas mudam de lugar e explodem se tornando imensos buracos negros, que por sua vez suga tudo e na volta, só deixa um resto de luz para a gente ver. Jogue o que quiser lá dentro, assim como numa estrela, que quebra. Me corrijo: as estrelas não podem mudar de lugar, porque somos nós, pessoinhas, que giramos em torno delas e de nós mesmos, até girar o suficiente para que nossos comportamentos explodam e a gente decida mudar! Porque ninguém pode jogar num buraco negro o medo de ficar sozinho, isso seria se jogar por inteiro. Muito menos uma autoestima baixa - autoexplicativo. Não quero nos diminuir, mas acaba que acontece que nem todas as outras coisas. Será que existe desculpa para isso? Ainda sobre as estrelas, perceba que antes de se implodir num buraco negro, ela se escassa de todo hidrogênio que existe nela, num processo autossuficiente. Parece um pouco com nós, pessoinhas. Nos exaurimos da nossa energia em prol de vários ciclos, até que implodimos porque nossa energia nos escapuliu, voltamos a ser o nada, e o que fica é a luz que deixamos pelo caminho.
Em The Good Place, após os humanos viverem sua pós-vida, passam por um pórtico feito de raízes de árvores para retornarmos ao que éramos antes da experiencia da vida. Eleanor, personagem principal, pergunta para Janet, uma mulher-robô - "I am none of those things" - que possui todas as informações do universo em tempo real, o que acontece do outro lado da passagem, e Janet diz que é a única coisa em todos os universos que ela não sabe. Já nos últimos minutos do último episódio, nos é revelado o destino de nossa matéria: um pequeno lampejo voa despretensiosamente desde o pós vida até o condomínio de Michael, ex-demônio arquiteto, agora humano, e encosta em seu vizinho que recebeu sua correspondência por engano, e no impulso de uma boa ação, ele escolhe levar a correspondência até o endereço correto ao invés de jogar no lixo. Michael dá gritinhos de alegria ao receber a confirmação de assinatura para um seguro que é claramente um esquema de pirâmide. Me parece que faz sentido a única coisa restante ser a luz, tanto para nós, quanto para as estrelas - e, aparentemente, demônios.
De fato, somos feitos de poeira estelar, dado o processo de evolução do universo, é claro. Mas eu brilho como uma estrela, e temos personalidades como Madonna e Beyoncé que brilham mais ainda. Há controvérsias. Eu poderia dançar que nem a Beyoncé se me esforçasse o suficiente, mas duvido que a Beyoncé conseguiria encarar um trabalho de professora de catarrentinhos numa escola fumbanga para gastar todo o dinheiro em maconha no final do mês. Ou conseguiria sim, ela é imparável. Ela não conseguiria fumar tanta maconha quanto eu, isso sim. O que estou querendo dizer é que todos temos ao que nos orgulhar, e essa energia positiva não vem da mundanidade da realidade, e sim da singularidade dela. E pense que, por mais que existam bilhões de estrelas, singular é o que habita ao redor delas, como nós, pessoinhas. Quer mais singular do que isso?
Buracos negros são devidamente singulares também, não é todo dia que trombamos em um. Mas se existem bilhões de estrelas, eventualmente todas irão implodir e se tornarão buracos negros, imagino o que vai acontecer nesse tempo. Provavelmente não estaremos aqui para viver os céus, as estações e as rotinas. Até porque o buraco negro bagunça o tempo, fator essencial para que todo o resto funcione. Me aventuro em propor então que aproveitemos enquanto as estações ainda façam nós, pessoinhas, sentir na pele a esperança de uma folha cair no inverno e ter certeza que ela vai florescer de novo, quando dor hora. E enquanto a nossa rotina nos trás segurança ao invés de escassez de vida, que possamos viver pessoalmente a mudança dos céus e ver todas as cores que eles vestem! E observar as estrelas ao desenhar a cruz no Cruzeiro do Sul, e montar nossa rotina para nos vestir errado e ter que carregar uma jaqueta de inverno quando faz 27º e o Sol não dá sossego. Porque nós, pessoinhas estrelas, ansiamos por implodir também.
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