Nome aos Lobos
Bar Porta em São Paulo, ano de 2023
Não escrevo para pessoas quaisquer. Não escrevo para mulheres passivas, e homens manchados. Não escrevo para quem não se aventurou ao outro lado da mente, para aqueles que não colocaram suas botas, seus sapatos vermelhos de veludo, e andaram pelos ladrilhos assustadores da psique. Para mulheres não verdadeiras, das mais mentirosas às mais honestas. Para homens que não sabem amar mulheres, e para aqueles que não amam a si próprios na condição de animação e ansiedade pela liberdade do corpo. Não escrevo para mães ainda não iniciadas, e para velhas de alma triste pelo tempo, que criam fungos nas unhas de tanto cansá-las nos assoalhos da vida. Não escrevo para crianças, mesmo que belas crianças. Escrevo para jovens e adultos. Mas não aos tipos supracitados.
Caminhar pelo ladrilho requer condições às vezes consideradas inatas à mulher. Como a intuição, a imaginação, a disponibilidade, e até o recebimento de uma criança nativa. É como se a capacidade de peregrinar no subconsciente levando consigo apenas a pele dura da sola do pé e seus piores pesadelos fosse intrínseco a vida da mulher. De fato, penso que quando alguém cria uma ideia, não se pode mais ser o criador da ideia, apenas quem a executa numa espécie de mimetismo. Essas ideias mais profundas e belas que emanam do espírito da mulher são recriadas constantemente por homens, na tentativa de ter concepção, entendimento, e proximidade com a realidade feminina. Às vezes, por que eles amam demais. Outrora, para entender como melhor dominar algo indominável, para afinar o desejo de redenção da mulher de forma mais eficiente, numa curiosidade autodestrutiva. Por isso penso que o mais perigoso dos homens deita em silêncio e escuta atentamente, esperando o som do mundo selvagem gritar de dentro dela, para atacar em seu momento mais sentido.
Esse homem maldoso entende melhor do que seus pródigos companheiros que a vida da mulher é sensível, muito mais do que ele conseguiria imaginar. E, realmente, a ideia da Mãe Selvagem, da Mulher Selvagem, do Mundo Subterrâneo, da Velha Que Sabe, do Espírito de Branco, são ideias extremamente sensível na psique da mulher, e cada ciclo de cultivo desses arquétipos são sagrados ao ponto de se comunicarem diretamente com o mundo concreto. As informações do Mundo Subterrâneo estão à disposição das mulheres constantemente, entregando, passando, afirmando, negando, assustando, acalmando. Cada respiro, passo, fala, fruto, líquido, raio de sol, gota de chuva, brisa... Cada subpartícula direcionada à mulher é compreendida também pelo Mundo de lá, pela Mulher Selvagem, que reagirá à espreita, ou escancarará sua voz em nossas entranhas, pois sabemos que ela é quem nos permite se importar. Sem ela, não existimos, não falamos, não criamos, nos tornamos repetições insistentes da realidade de outro alguém.
Tal sensibilidade não é brincadeira. À vida de uma mulher, cria-se o teatro de que somos mais fortes quanto menos sentimos -- a busca do oprimido por se tornar o opressor, falácia capitalista tosca de consequências reparáveis, mas profundas e doloridas. Tudo isso com o receios dos dedos tirânicos da sociedade e do mundo objetivo a mando do homem branco. Não deve desconfiar, espreitar, manipular, festejar, querer, divergir, absolver, ditar. Verbos de grande carga temporal como esses, que criam por si só uma trama experimental na mente, são brutalmente repreendidos quando impulsionados por uma mulher. Acontece que, quando ela finalmente se dá permissão para conhecer alguns deles, algo nasce, sua essência desperta, e não há como voltar atrás agora. Uma vez dada a permissão, o espaço, a atenção, não há como voltar. Tem de percorrer o caminho todo, agora. E ela percebe que pode fazer tudo isso, e muito, muito mais dentro de si, num sistema retroalimentar em que quando mais fundo se vai, mais tem energia para ir. E mesmo quando se esgotam as forças, a animação, o medo que impulsiona, e a mulher é sobrecarregada pela vertigem de viver em dois mundos, a única coisa capaz de trazê-la de volta mora lá no fundo. Ela recebe clareza de descer novamente. Às vezes, a vida objetiva entrega de bandeja a situação perfeita para que ela fique aqui, mas ela decide descer. Outrora, a vida objetiva se cala, e ela decide descer. Ainda, a vida objetiva pode ser destruída e levada às cinzas. Ainda, ela desce, cada vez mais fundo, como uma mãe em busca de seu filho, ou uma mulher apaixonada pelo seu trabalho.
Entende-se que não há vida objetiva que seja capaz de saciar a sede do espírito de viajar pelo Mundo Subterrâneo, tanto ao homem quando à mulher, mesmo que o homem acompanha o processo feminino apenas em passagem. O homem pode aprender a performas e desenvolver seus próprios processos psíquicos em concomitância com os arquétipos que regem a mente. Mas, em suma, o desgaste social de tentar viver a vida objetiva em sua capacidade máxima, numa espécie de hipnose materialista, não é cabível ao espírito.
Desci algumas vezes ao Mundo Subterrâneo. Não sei ao certo quantas, mas as mais impactantes foram acompanhadas de estímulos visuais, como em sonhos, paralisias do sono, e pinturas que fiz em alusão à minha leitura de Mulheres Que Correm Com os Lobos. Em relação ao meu processo individual de maturação da Mulher Selvagem que reside em mim, o livro é um manual psíquico dos ciclos que experiencio, porque meu contato com o subconsciente é estranhamente latente. Se fico tempo demais, não volto com energia suficiente para compreender as tarefas do mundo objetivo. Se fico no mundo objetivo tempo demais, caio de cabeça no buraco e a queda é alta. Hoje, li um trecho que acalenta minha disposição para os dois, e explica a coexistência íntima desses dois mundos:
A princípio, o tempo passado com a Mulher Selvagem é difícil. Recuperar o instinto ferido, eliminar a ingenuidade e, com o tempo, aprender os aspectos mais profundos da psique e da alma, guardar o que tivermos aprendido, não voltar as costas, defender aquilo que representamos... tudo isso exige uma resistência mística e infinita. Quando emergimos de volta do outro mundo depois de uma das nossas incursões por lá, por fora pode parecer que não mudamos, mas por dentro conquistamos um vasto território feminino e selvagem. Na superfície, ainda somos simpáticas, mas debaixo da pele decididamente não somos mais mansas.Pág 560
Todo o caminho, em todos eles, e cada frase, pode se tornar doloroso. Às vezes, a descida é sutil e esclarecedora, e a subida é dolorosa, fádiga e simplória. Para voltar ao mundo objetivo, deve se despedir do calabouço familiar, a masmorra enfeitada com flores mortas e pedras para descansar a cabeça, a torre guardada pelo dragão manso. E deve abrir o peito. Como diz Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu, "deve iluminar sua alma cheia de profundidades e superficialidades, e dizer o que sua beleza significa para você e para sua simplicidade". Deve ser capaz de se traduzir ao Mundo Objetivo para que carregue ouro psíquico na descida, quando for hora de peregrinar novamente. Alimentar o outro mundo é alimentar a si mesma e a sua criação. E, para isso, deve superar as sensações inconformes do mundo objetivo, se submeter a tensão.
A mulher, {na condição de iniciação}, encontra-se muitas vezes dividida entre duas opções, pois abate-se sobre ela um impulso de mergulhar na floresta, como se ela fosse um rio, de nadas no verde, de subir ao topo de um penhasco e ficar ali sentada com o rosto ao vento. É uma época na qual um relógio interior bate uma hora que faz a mulher sentir uma necessidade repentina de um céu que ela possa chamar de seu, uma árvore que possa abraçar, uma pedra na qual possa encostar o rosto. Mesmo assim, ela também precisa viver sua vida no mundo concreto.
É um motivo de honra para que, apesar de ter muitas vezes sentido o desejo de sair correndo em direção ao pôr-do-sol, ela não o tenha feito. Pois é essa vida concreta que exerce o nível certo de pressão para que ela assuma as tarefas do outro mundo. É melhor permanecer neste mundo durante esse período, em vez de abandoná-lo, porque a tensão é melhor, e a tensão cria uma vida preciosa e bem torneada que não pode ser obtida de nenhuma outra forma.
Pág 558
Similarmente, podemos compreender esse processo como a antiga busca do ser humano por equilíbrio mental, espiritual e físico. O mundo material comporta a possibilidade de trazer à realidade todos os atributos desenvolvidos na busca, como a prática da intuição, o valor ao trabalho, a consciência corporal. Muitos acreditam que o impulso para ser algo é capaz de fazer com que nos tornemos este algo -- é uma perspectiva materialista, iluminista, e predominantemente masculina da personalidade e atividade mental. A capacidade de escolher o que se pensa não salva a mente de pensar por si própria, não reduz a atividade intuitiva de fazer o que tiver de fazer para alertar, e não poupa o subconsciente de imprimir reações e absorver controvérsias. O que acontece é uma projeção falaciosa de controle sobre o Mundo de lá, como se, por morar dentro de si, a ti pertence e a mais ninguém. De fato, não há ninguém que possa chegar lá se um não permitir. Mas constantemente permitimos, deixamos que pessoas entrem em nossas masmorras pessoais, em busca de sossego, entendimento, cuidado, etc. Claro que, o impulso quase afrodisíaco para essas sensações pode ter diversas razões e causas, mas, essencialmente, espelhar a imagem de outras pessoas no nosso Mundo de lá é apenas uma tentativa de peregrinar acompanhado. Projetamos então imagens, que são arquétipos fugazes que exprimem reações e estímulos na psique, e prestamos atenção a eles. Constantemente, vejo mulheres com pensamentos coletivos e diplomatas, em quaisquer situações que venham a abatê-las. Enquanto isso, vejo homens que apenas reagem, não alimentam ideias verdadeiras e não permitem a semente do pensamento se desenvolver em duas cabeças para que possam traduzi-los ao mundo com perspicácia e justiça. Nos dois casos, a mulher e o homem estão acometidos pela presença efêmera de medulas perdidas no subconsciente, que muitas vezes são tão bem estruturadas que trazem consigo ideias antigas e distantes, fora daquela realidade. Digo com firmeza que as pessoas que moram na sua mente não tem semelhança alguma com as verdadeiras. Projeções mentais são você mesma, vestida de outra forma.
A descida até o Mundo Subterrâneo permite liberdade, raciocínio e ponderação sobre a inconformidade do Mundo Concreto. Em algumas incursões, é possível visitar essas imagens, entender o que elas fazem por lá e qual o benefício de mantê-las morando no Habitat Selvagem. Às vezes, é possível encontrar medulas antigas, perdidas entre as árvores, se escondendo e morrendo de fome, presa em algum arbusto com espinhos. Nesse caso, livrar dela, libertar a medula e deixá-la morrer de fome é a melhor opção, em ato de misericórdia. Outrora, a imagem de seus pais controla todo o Habitat, e dita quem entra e quem sai, quais as vegetações devem ser cultivadas, quais devem morrer. Em todos os casos, cabe a quem desceu encontrar a Mulher Selvagem, que provavelmente estará as sombras, esperando o melhor momento de entrar em contato e sussurrar algumas informações importantes. A Mulher Selvagem pode vir em forma de uma brisa quente, uma gota gorda de chuva, uma folha caída mais verde do que as que ainda estão nas árvores, uma pedra com glitter, nas mão de uma criança ou de uma velha, nos seus cílios, nos cabelos de uma amiga, em um livro, numa cor de tinta. Ouvi-la uivar pela primeira vez pode causar tormento ao Habitat, quando no caso de ainda não ter tomado suas rédeas. Quem é esse ser estranho, não óbvio, que parece comer sempre alguma fruta que cultivo, sempre descansa na floresta e deixa rastros, galhos quebrados, a sensação de que algo divino passou por ali? Quem é que pia à margem do meu olho esquerdo quando não estou prestando atenção, que me dirige à lealdade aos meus amigos? Que quer ter filhos? Que aparece para se queixar quando a Lua vem? Que ouve com atenção todos os instrumentos de uma música que toca para o Mundo de lá, e escuta o cantar dos pássaros enquanto grito comigo em desaprovação? Quem é essa que cuida de todos os ossos? Quem é essa que faz amor? Quem que uiva aqui embaixo?
Sobre o livro Mulheres Que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés. 11ª Edição, editora Rocco, 1977
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