Barbatanas e Mãos
Se eu fosse falar o que realmente significa para mim todas as minhas palavras, as minhas monções, não sei que tom adotaria. Me chega raiva, comoção, malícia, melancolia. As músicas que ouço, temo que me torno elas quando ouço. Então imagine quando as minhas memórias cantam para mim! Minha infância, minha vida…
Admito que, de fato, nada me basta. A quem vive nessa profundidade, a felicidade é trivial, é apenas mais uma peça desse quebra-cabeça gigante. Eu não quero ser feliz, não preciso de tal pedido metido. Quero que a minha sede de vida, vida real!, nunca acabe. Que eu me embole em todas as minhas ideias, que eu me perca no que sinto mais milhares de vezes, que eu viva milhões de vidas na minha oficina, que eu nunca descanse, que perca noites viajando em todo lugar, real ou imaginário. Sei lá! Que vida ingênua a de quem não vê as melhores e piores coisas da vida em si mesmo. E um brinde a quem não presta atenção! Há de serem os seres mais evoluídos que conheço… mas do que servem as minhas convicções?
Eu prometo a mim mesma a redenção aos meus segredos. A minha mente e cabeça maldita que nunca há de descansar. Que eu MORRA! na minha masmorra. Que eu jure fidelidade a mim mesma para além de qualquer mundo. Que eu morda meus próprios dentes nas minhas ansiedades… Abençoe Deus minha pele e carne, pois irei gastar!
Estou pronta para começar meu ato. Na minha ilha de confiabilidade mora a imagem da aceitação. Porque no fundo sei que a minha confiança vem do incerto, me abrigo nas asas da possibilidade e me alimento do fogo infinito que nasce no fundo do mar.
O manto narcísico da arte, sabem, sim, que se grita de você mesmo pela falta. A barbárie do canto para o gozo, dos artistas que não se cansam da própria arte porque se cansam de si mesmos. Fuga, foge – quem mente para o outro mente para si mesmo, e quem mente para si não é louco. Louco é quem tem o peito de encarar a verdade do outro, e a verdade que ele não liga para sua mentira ordinária! Mente, sim, infiel, a quem está sendo traído ninguém olha de dentro. Você fala como se não soubesse.
Se preocupa com a verdade alheia, te falta. Não sei o que, cada um com seu esconderijo. Arte nenhuma vai te salvar, porque nunca se perdeu. Deixe-se fugir com suas sombras, suas malícias, suas bizarrices, suas falhas, sua voz, sua insatisfação, seu choro. A arte não te coloca para cima, espelha sua qualidade inata de subir. Não espere um quadro, uma música, uma fala. Todas são suas, lindeza!!! São todas suas!!! Escolha as que te elevam! Não te leve a lugar nenhum, fique aqui. No lugar que bate seu coração é o mais lindo, afinal. Confunde barbatanas e mãos, carros e danças, fumaças e memórias… Aceite a voz que te guia, participe do mistério com tudo que tem, assim do jeito que faz! Deixe o calor te chamar, o vento te empurrar, a água te purificar e a terra te lembrar de casa.
Lugar de poesia é na calçada.
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