Dentro da Minha Vagina
Há algo de convencional em fazer exames médicos, um certo quê de formalidade. É possível sentir no começo, na tensão de falar com a secretária do consultório, decifrar os nomes complicados dos exames, e se segurar para não mandar um “beijo, te amo” no final da ligação. Quando se é mulher, e estamos falando de exames ginecológicos, existe uma tensão ainda maior, sente-se que está prestes a mexer com aquilo que não se fala, aquela que não deve ser nomeada. É quase que desconfortante, porque não é necessário falar seu nome em momento algum. Nenhuma mulher chega no consultório e diz à atendente: “bom dia, vim examinar minha vagina, por acaso o médico é homem?” muito menos: “boa tarde, acho que minha buceta tem algo de errado, estão saindo líquidos estranhos dela, é preciso examinar, por acaso o médico é homem?”. A formalidade é enorme aqui, existem diversos termos técnicos para todas as estranhezas que acontecem lá embaixo nas mulheres, e todos são usados com abundância para reforçar não só que somos inteligentes, mas comportadas e respeitosas. Tudo é muito educado até chegar o momento em que tiram-se as roupas e a calcinha, esconde o corrimento da doutora (com sorte, doutora), veste-se um avental aberto na bunda e deita-se na maca para examinar lá dentro. Será que estou grávida? É a primeira coisa que vem na cabeça. E todas as vezes que cedi e transei sem camisinha? Porra, será que estou doente? Minha menstruação está em dia. Será que vai doer? Com certeza. E quando você percebe, está sozinha na sala, com o quadril em cima de uma almofada, e sua vagina exposta ao mundo entre suas pernas, com as pontas dos pés juntas e o joelho encostado um no outro. A enfermeira deixou apenas uma luz ambiente, para acalmar e relevar o fato de que, em alguns instantes, um homem ou uma mulher (ainda não se sabe) entrará por aquela porta, provavelmente de forma brusca, não olhará no seu olho, muito menos perguntar como você está (porque você está ótima, não é?) e te enfiar um tubo de plástico com uma camisinha barata. Olho para cima, olho para os lados, toco um dedão no outro tentando tirar minha cabeça do minuto seguinte em que alguém colocará quantidades insalubres de lubrificante dentro da minha vagina para ver se está tudo bem lá dentro. Tudo isso acontece. E é capaz de piorar: meu DIU (Dispositivo Intra Uterino) está fora do lugar. Porra, será que estou grávida? E estou de mal do último homem que transei, imagina que desastre. Mas não tem feto algum no meu útero, a médica (ufa) me confirma. Com exceção do meu método contraceptivo, que é fácil mas doloroso de consertar, está tudo em ordem. Então a médica tira o longo tubo de plástico do meu buraco sagrado, e me levanto da cama, deixando um pouco de lubrificante como rastro. Ela colocou e nem olhou no meu olho. Nesse momento, bate o choque de realidade de que a vagina é só mais um órgão genital, assim como um pênis, por mais que ninguém pareça se sentir tão receptível com seu feitio, e que realmente não é necessário o alarde. É só mais um exame médico como qualquer outro, tirar sangue, fazer uma ressonância… De fato, são todos convencionais, por mais que incrivelmente íntimos. É essa intimidade que acredito tornar a situação desconfortável. Como mulheres, temos em mente a todo tempo que devemos escolher com parcimônia quem e o quê penetrará lá embaixo, assim como somos inteiramente responsabilizadas pelas consequências. Algo que permitimos penetrar deve “dar certo”, caso contrário carregamos a culpa do insucesso como se fosse nossa. Nesse contexto, perdemos o senso de considerar que, muitas vezes, as pessoas escolhem outras coisas, pessoas, buracos, atitudes, personalidades e cortesias. O que a sociedade deixa de perceber é que, não controlamos quem entra, e sim se entrará ou não. Somos guardiãs, mais do que ditadoras, cuidamos daquilo que nos foi endereçado, e os ofertantes e suas intenções não nos dizem respeito. Se fizermos a guarda corretamente, ainda sim estamos passíveis a elementos surpresas e cabe a nós tirar o infiltrado do templo à força, se for necessário. Portanto, seja ao escolher um bom laboratório para fazer exames (a qualidade das camisinhas e do lubrificante para o ultrassom transvaginal não é um ponto de referência útil, pois todos vão usar produtos de péssima qualidade), um parceiro sexual casual, ou um parceiro amoroso que fará visitas únicas e frequentes à sua vagina, é necessário cautela e paciência. Não cabe aqui o desespero para a penetração, nem acreditar que o templo só funciona quando há um homem ditando as regras de dentro de ti. Você permite a entrada, mas mais importante, decide o momento de saída. Não é responsabilidade da guardiã virtuar o comportamento dos ofertantes, mas sim cuidar daquilo que mais é valioso na vida: teu corpo.
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