Era do Otariano
Uma vez, eu encontrei um inseto de um verde-bandeira, parecia uma folha com anteninhas, só que o bicho estava virado de barriga para cima, tipo uma tartaruga encalhada. Eu tentei virar ele de barriga para baixo e ele grudou no meu dedo. Eu gritei e joguei ele para longe. Logo percebi que, durante a confusão, eu parti ele ao meio com meu oxford tratorado. Que otária.
Em São Paulo é tudo mais. Te ligam de todos os Estados do país, e você não consegue dizer se é de um presídio da Rondônia ou o Serasa te ligando para checar seu score. Ao sair para trabalhar, o ônibus está lotado de pessoas tristes e envelhecidas. Pelas janelas você vê moradores de rua com seus cachorros morando em lugares sucumbidos ao lixo urbano; mulheres indo trabalhar como serventes para que outras mulheres não tenham que cuidar dos seus filhos, e para que os homens possam comer estrangeiras enquanto viajam a trabalho; jovens com o futuro pela frente passando a milhão empinando motos para entregar o iFood de algum universitário bancado pelo pai; senhores de idade indo buscar sua aposentadoria na Caixa Econômica mais próxima (que fica a três ônibus e uma baldeação de metrô de distância); e ninguém se olha no olho porque, sobre a realidade do outro, ou ela te enfurece, ou ela te banca, ou ela te entristece. Dizem que em São Paulo não existe amor, e posso confirmar. E não me venham com “ain em São Paulo existe amor sim pois amo meu namorado”. Vai cagar.
Terça-feira, dia 4 de Julho. Fui checar a mensalidade do meu curso e se o boleto já estava disponível para me matricular no 3º semestre. Mais uma vez vi ali uma mensalidade antiga, já paga, com um preço bem inflacionado. Como já ocorreu antes, tentei me comunicar com algum ser humano ao invés das milhões de vias Online em que converso com algum tipo novo de Inteligência Artificial. O atendimento pelo Chat com um humano estava fora do ar. O número chamado não existe. O outro número chamado teve o canal cancelado. O que me resta é abrir uma solicitação Online e esperar que resolvam meu problema em algumas semanas.
E mesmo assim, toda endividada, com o cabelo não suficientemente hidratado e com as unhas sempre a fazer vai levantar mais uma vez, e fazer tudo de novo. Vai fazer bem, mas muito bem-feito. Vai aprender a não falar com velhos na rua, assim como a regular a intuição com cachorros. Não dá para evitá-los, são muito fofos.
Também será mais cautelosa com quem e o que entra na sua vagina. E que, infelizmente, a maioria das pessoas na internet que promovem oportunidades de ganhar dinheiro querem mais é tirar o seu. A sociedade de consumo consome nossa boa vontade de viver, porque justo quando se dá um salto de fé, o buraco de malandragem te puxa numa gravidade sobrenatural.
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