Era do Otariano

 



    Existem coisas na vida que existem para te provar otária. Inocente não é a palavra certa, nem ingênua. Otária. Sonsa. Boba, no mínimo. A sensação de quando alguém te passa a perna é foda. Dá vontade de mandar um e-mail ameno falando que você entendeu o que aquilo quis dizer. Dá vontade de ser passiva-agressiva num ambiente coletivo. Ou uma mensagem de texto abordando o motivo da insatisfação com três pontinhos no final. Tipo quando você assiste três vídeos no YouTube sobre uma proposta de trabalho remoto e pago em moeda estrangeira e é uma grande propaganda de curso. Ou quando você olha um senhor com jeito de vôzinho na rua e ele tenta passar a mão em você. Parece muito quando você vai acarinhar um cachorro na rua, num momento Branca de Neve (ela se comunica com os animais!), e ele rosna bem quando você chega perto. Se você for mordida, não saia de casa por uma semana. Abrir conta em banco, participar de processos seletivos, manter um hobby, passear com a família, noitada com os amigos, pagar a mensalidade do curso: tudo conspira para dar errado da forma mais ridícula e inconveniente possível para te confirmar sua passividade ao otarismo. Um eterno debaixo do Sol faz calor, mas na sombra é frio pra caralho. E digo mais, a sensação de que tudo dá errado começa quando você tem que pagar por aquela pequena felicidade.

    Uma vez, eu encontrei um inseto de um verde-bandeira, parecia uma folha com anteninhas, só que o bicho estava virado de barriga para cima, tipo uma tartaruga encalhada. Eu tentei virar ele de barriga para baixo e ele grudou no meu dedo. Eu gritei e joguei ele para longe. Logo percebi que, durante a confusão, eu parti ele ao meio com meu oxford tratorado. Que otária.

    Em São Paulo é tudo mais. Te ligam de todos os Estados do país, e você não consegue dizer se é de um presídio da Rondônia ou o Serasa te ligando para checar seu score. Ao sair para trabalhar, o ônibus está lotado de pessoas tristes e envelhecidas. Pelas janelas você vê moradores de rua com seus cachorros morando em lugares sucumbidos ao lixo urbano; mulheres indo trabalhar como serventes para que outras mulheres não tenham que cuidar dos seus filhos, e para que os homens possam comer estrangeiras enquanto viajam a trabalho; jovens com o futuro pela frente passando a milhão empinando motos para entregar o iFood de algum universitário bancado pelo pai; senhores de idade indo buscar sua aposentadoria na Caixa Econômica mais próxima (que fica a três ônibus e uma baldeação de metrô de distância); e ninguém se olha no olho porque, sobre a realidade do outro, ou ela te enfurece, ou ela te banca, ou ela te entristece. Dizem que em São Paulo não existe amor, e posso confirmar. E não me venham com “ain em São Paulo existe amor sim pois amo meu namorado”. Vai cagar.

    Terça-feira, dia 4 de Julho. Fui checar a mensalidade do meu curso e se o boleto já estava disponível para me matricular no 3º semestre. Mais uma vez vi ali uma mensalidade antiga, já paga, com um preço bem inflacionado. Como já ocorreu antes, tentei me comunicar com algum ser humano ao invés das milhões de vias Online em que converso com algum tipo novo de Inteligência Artificial. O atendimento pelo Chat com um humano estava fora do ar. O número chamado não existe. O outro número chamado teve o canal cancelado. O que me resta é abrir uma solicitação Online e esperar que resolvam meu problema em algumas semanas.

    E mesmo assim, toda endividada, com o cabelo não suficientemente hidratado e com as unhas sempre a fazer vai levantar mais uma vez, e fazer tudo de novo. Vai fazer bem, mas muito bem-feito. Vai aprender a não falar com velhos na rua, assim como a regular a intuição com cachorros. Não dá para evitá-los, são muito fofos.

    Também será mais cautelosa com quem e o que entra na sua vagina. E que, infelizmente, a maioria das pessoas na internet que promovem oportunidades de ganhar dinheiro querem mais é tirar o seu. A sociedade de consumo consome nossa boa vontade de viver, porque justo quando se dá um salto de fé, o buraco de malandragem te puxa numa gravidade sobrenatural.

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