Mudança de Tempo
O passado que logo se torna presente, que logo se torna futuro, que logo se torna presente, que logo se torna passado.
Aos 16 anos, tive a primeira sessão de terapia da minha vida, de muitas que viriam. Eu assumo que, como todas as primeiras sessões de terapia, lhe perguntam o porquê de você estar lá. Respondi que tinha acabado de voltar de uma grande viagem em que vivi os melhores momentos, conheci as melhores pessoas, e vi os lugares mais belos, e estava aflita por acreditar que nunca mais seria feliz como fui. Naquele momento, havia voltado para a realidade do meu dia-a-dia e me sentia desesperançosa, infeliz e amarga. Apesar disso, meu irmão mais novo nascera justamente naquela época, talvez tenha sido isso o que me mantinha sã.
Três anos depois, várias sessões de terapia depois e diversas felicidades deixadas pelo caminho depois, ainda entendo a aflição. O passado é cruel, por mais feliz que seja. Às vezes, é comum não se permitir viver a felicidade plena pela sensação agonizante de deixá-la para trás, assim como todas as outras coisas, pessoas, emoções e experiências. Pessoalmente, o cultivo de uma relação com o passado escancarou algumas portas minhas que nunca soube se teria peito para entrar. O que antes eram apenas lembranças do meu boneco do The Sims, tornaram-se chaves, medalhões, rastros de um subconsciente ferido, e o sangue escorreu pelos meus dedos como água de cachoeira. Passei a sentir um soco na nuca em cada memória. E a coisa mais louca é que, todos os meus arquivos estão presentes, até que eu preste atenção, e eles passam a ser reais. Claro, não fisicamente reais, mas reais de percepção. Pouco se fala sobre isso, na verdade. Algumas memórias são tão reais que o corpo responde imediatamente, a mente se abate em nostalgia, e a pele fica mais sensível. O coração, então, nem se fala! Comprime, expande, agita, separa, para.
Num piscar de olhos, qualquer presente se torna passado, e qualquer um é capaz de voltar no tempo a hora que quiser. Momentos simples e intermitentes são postos em segundo plano, para dar palco a um choro da infância ou um beijo da adolescência. Não é incomum encontrar pessoas completamente obcecadas pelo próprio passado, seja no saudosista exacerbado – clássico em pessoas de idade –, ou na obsessão do orgulhoso. O orgulhoso se sustenta no presente pelo passado, porque em algum momento de lá, ele foi tudo que sempre quis ser. De qualquer forma, assim como a morte, conviver com o passado é experiência humana universal, e cada um lida da forma que consegue!
A terapia nada mais é do que uma conversa guiada que nos auxilia no processo de escavação das nossas memórias. De bônus, entendemos o que é nosso na história e o que pertence ao outro. Em relação ao passado, só podemos lidar com ele no presente, e torcer para que seja o suficiente para que, no futuro, possamos compreender a realidade como ela é. Como se é de praxe, é impossível mudar o passado, está feito, terminado, determinado, e limitado pela lei natural das coisas. Ninguém inventou a viagem no tempo ainda, confere?
A verdade é que me sinto muito confusa sobre todas essas questões. O tempo ainda mexe comigo, o passado mexe comigo, e o futuro me desconcerta. Cada palavra dessa atinge aquele ponto meu que ainda não sabe do que fala, mas gostaria muito de saber, por isso tenta. Meu passado é minha história, minhas memórias, algo que é só meu e ponto. Gostaria de poder afirmar que ninguém entra nas minhas memórias e no jeito que eu vejo as coisas, mas entra sim porque é assim que as coisas funcionam. Se fosse fácil descrever o que é o passado, ou melhor, se não doesse escrever sobre ele, talvez aí morasse minha morada final; talvez nesse ponto eu realmente esteja finita e em estado de contenção com tudo que foi. Mas raramente me sinto assim, raramente me sinto satisfeita com o que foi, e a tristeza que amarro em meus pés segura alguns passos que para minha vida seriam definitivos. A vontade de parar no tempo ainda me pega no culote, puxa meu cabelo e caem coisas nos meus olhos. Caem lembranças, medos, histórias, ilusões nos meus olhos, que me impedem de ver e pisar com mais firmeza nos chãos do mundo. Não sei escrever sobre o passado, me sinto aflita ao escrever sobre o presente, e não me arrisco a escrever sobre o futuro para evitar possíveis frustrações. Vivo com medo do tempo, enquanto ele continuamente me dá motivo para tal. No meio de tudo isso, não me deixo perder, me reencontro em algum momento, no agora na maioria das vezes. Eu grito, eu uivo, eu bebo e fumo, na tentativa de buscar essa presença magnífica que morreu no passado, ou mora num futuro que ainda não conheci. A verdade é que o tempo, e suas maneiras de ser, fazem voltas e mais voltas em volta da gente, e não se pode fazer muito mais do que sentar, observar, e se mexer algumas vezes. Me sinto refém do tempo o tempo todo. Não sou saudosista, não sou ansiosa, não sou maligna, não sou puritana. Sou refém do tempo e sei disso, não finjo não saber. Ele é quem mais me aflige, restringe, resguarda. Há de haver o tempo em que sei de sua essência benigna. Talvez deva pensar mais sobre isso antes de decidir o que penso, porque, até então, o tempo me fez pessimista. Não há tempo para ser tudo que quiser, por isso as decisões.
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