Quem Diz Ser Feliz é Mentiroso
Em que momento e por quem foi decidido que ser feliz é obrigação? Quando tu resolveu que era digno de felicidade? Que parte de ti disse que felicidade está à solta para te encontrar? Te digo que não está, que não é necessário para viver e que tu não é digno de nada. Te digo mais, que deve ser triste, que deve estar com raiva e que deve culpar a ti mesmo pela insatisfação. Nunca te ocorreu que tu não é feliz, só finge ser? Que quanto mais tu busca felicidade, mais ela se afasta de você? Claro que sim, e os dedos estão empinados e certeiros para apontar a quem ou o que te fez o desserviço de te deixar assim, tão amargo. Justamente porque tu não é burro de escolher algo não-feliz para ti mesmo, sabe que más escolhas levam a caminhos ruins e pessoas ruins e, logo, tristeza profunda e até depressão. Palmas para nosso messias! Que ele sabe o que faz e é feliz. Se não é, culpa de quem não faz o mesmo que ele.
Sempre fui adepta a perguntas complicadas com respostas inconclusivas. Me fiz assim e faz parte da minha vida ser capaz de responder uma pergunta de mil formas diferentes. Quanto à vida em si, esse traço não me ajudou a desenvolver nada muito importante além de um cérebro com facilidade para questões difíceis, possivelmente matemáticas. Na minha cabeça, se você pode chegar à raiz do problema usando o pensamento, tudo tem algo a ser resolvido, e é assim que você se ocupa e não fecha os olhos para o que não te serve. Não posso reclamar tanto porque esse processo mental já me livrou de vários erros comuns entre jovens, como não ter cuidado com minha saúde sexual, não me importar com minha saúde física, pretender um futuro como sugarbaby, não estudar, etc. Esta predisposição para questionar pode sim ter vindo da minha infância turbulenta, da corrupção moral das figuras de autoridade que tive, ou do quanto que acostumei a minha opinião ser a mais sensata - não porque sabia de tudo, mas porque ninguém aparentava saber de nada. Porém, assumo com consciência que é curiosidade desbalanceada, e toda curiosidade vale a pena. Curiosidade é coringa para situações de vida, das melhores às piores, sua presença sempre te entrega um pouco de vida aqui, um pouco de realidade acolá. Mais importante, a curiosidade não decepciona.
Estou crescendo agora, e esse monte de informações advindas de análises robustas sobre questões casuais me tornou uma pessoa depressiva. Sei que parece drástico, mas há quem diz que depressão é consequente do questionamento constante do propósito das coisas. Perguntas como, por que me importo com esse grupo de amigos? Por que minha família é assim? Por que errei? Rapidamente se tornam, por que sair de casa? Por que tomar banho? Por que levantar da cama? Qual o propósito da minha vida aqui, e onde posso encontrá-lo? É comum para a pessoa depressiva lidar com a decepção constante de que, de fato, ninguém te diz nem te mostra teu propósito; no mais tardar, é uma escolha. Quanto mais perguntas, mais respostas, mais possibilidades, mais “e se?”, mais dúvida sobre o caminho natural da vida. Como disse, sempre fui adepta a perguntas, e “a ignorância é uma dádiva” continua sendo um dos ditados que mais odeio.
As perguntas se tornaram ideias mortas, passados insolucionáveis, partes e probabilidades da vida que eu deixei se perderem no tempo, porque estava paralisada a tentar descobrir qual a resposta mais adequada. No meu purgatório particular, eu tenho tudo que preciso, só me faltam as perguntas certas. Enquanto isso, recebo julgamentos por ser intensa demais, pensar demais, falar demais, fazer demais, querer demais, mas não conseguir manter a sanidade nesse mundo maluco cheio de gente que também quer tudo da vida. De bombardeio em bombardeio, a maré das perguntas enche, e cada vez mais é necessário saber nadar para navegar sozinha. Isso porque as pessoas da sua mente são você, vestidas do que você pensa delas. Está sozinho.
Até que percebi.
Não somos felizes. Somos a felicidade. Ser feliz é existir em estado de felicidade, como se ela fosse tua para estar contigo o tempo todo. Tu é felicidade, pois pode ser. Como é também tristeza, avareza, agonia, e tudo que é de mau no mundo. É destruição, egoísmo, guerra, preconceito, é tudo isso junto. E é felicidade, paz, carinho, amor. Tu é a felicidade.
A busca por ser feliz é infinita, porque nunca se estará feliz o tempo todo, e toda hora que a felicidade for embora, tu xinga, aprisionando ela dentro de si, enjaulando a coitada com tua negatividade. Felicidade é livre assim como você.
Tem capacidade sim de ser feliz. Porque você é ela. Não precisa se tornar algo nenhum para que ela exista, porque se tu existe, ela existe junto.
Ninguém é a tua felicidade. Tu é a felicidade. É só isso que é necessário entender. Se age com felicidade, é porque tu é. É feliz? Não. Sou a felicidade. Assim como todos os outros no mundo. Mas existem escolhas, e tem quem não quer ser e quem tem dificuldade. Escolha por ti e livre os outros do teu julgamento. Ninguém é obrigado a ser feliz por você.
Comentários
Postar um comentário