Resenha - Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo

 Nada importa. Nós mortais nos acostumamos com isso. Dizem que nada importa porque todos vamos morrer um dia, então faça o que você bem entender: não ligue para nada, trate as pessoas do jeito que bem entender, a vulnerabilidade não é nada mais do que uma expressão da insignificância e melodramaturgia que é estar vivo. Mas é bem mais do que isso: existe uma linha muito tênue entre tudo que podemos ser e o que somos no momento atual. A sombra das nossas ideias e expectativas para nós mesmos nos segue e delineia o presente com as impressões que nós temos do mundo, e das pessoas à nossa volta. Somos cheios de expectativas para elas também. Cada ideia, cada desmembramento, cada vertente de personalidade que cada segundo nos possibilita ter cria uma nova história para nós, cujo enredo pode nos trazer muito mais felicidade do que experienciamos na realidade. E se eu não tivesse feito isso? Se tivesse feito aquilo? Se tivesse dito tal? Essas histórias são contadas de novo e de novo nas nossas cabeças, quase que virando memórias. De lá, nós sugamos a positividade para nos mantermos andando, mas o efeito colateral desse sistema desregulado é a apatia em relação a vida real. Isso porque uma ideia mal contada numa cabeça cheia de histórias vira um poço de ilusão e desilusão. Acaba que nós não fazemos da vida o que queremos, e sim o que pensamos que conseguimos dada a merda que tudo é. Esse é o nosso tudo. 
Em todo lugar nossas ideias se manifestam. Olhamos para uma mesa e nos imaginamos com a pessoa que amamos comendo algo e se amando. Visitamos a casa dos nossos pais e pensamos como tudo poderia ter sido, e que merda que não foi desse jeito porque agora carrego mais essas histórias comigo – (as reais, então mais doloridas)  para todo canto. Como na mesa de um bar, esperando por algo ou alguém que vá me mostrar a história certa. Porque se eu estivesse fazendo aquilo, pensando nisso, falando tal e agindo de certa forma, aí sim eu estaria na história certa – você diz. De pouco a pouco vamos povoando os espaços que experienciamos com o corpo com as ideias que temos para nós mesmos e para os lugares a que supostamente pertencemos. Qualquer canto passa a representar a insatisfação com a história que você conta, em comparação com a que você queria contar, ou que repetitivamente conta para si mesmo. 
Até que você junta tudo num mesmo momento. Você une todas as histórias, todas as ideias, todas as pessoas, todas as possibilidades, todos os espaços, todas as palavras, todos os objetos, todos os caminhos, todas as vontades num único – só – momento. Bem-vindo ao presente. Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo é um filme denso, cheio de informação, cheio de trapaça e confusão, o Tudo e o Todo Lugar captam perfeitamente a impressão de infinitas possibilidades que nós, seres humanos, vivemos todos os dias. E nós temos acesso a toda essa pluralidade de forma visual durante boa parte do filme. Tudo se reduz ao agora, ao momento em que nós nos contentamos com o que queremos agora, e percebemos que já temos tudo que precisamos. Que as ideias essenciais são só aquelas que significam para o outro também, e que nada importa, e que podemos fazer o que quiser, e por isso que é tão bom. Porque a gente pode.


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